jun 12 2009

Um ator noum ensaio

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno, porém macio, núcleo de sua sensibilidade. E por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação. O ator tem esse dom. Ele tem o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. O ator, não o autor ou o diretor, tem esse dom.
Esse pequeno trecho do texto de Plínio Marcos, ‘O ator’, me acompanha há bastante tempo. A cada leitura, uma emoção renovada. É quase uma oração, no sentido do sagrado evocado por Peter Brook, diretor de cinema e teatro inglês.
Acabo de participar, como ator, de uma nova experiência com vídeo junto com uma equipe de colegas das lides artísticas. É o projeto “Um ensaio”, onde Fábio Porto enfrenta roteiro, direção, manuseio de equipamentos eletrônicos e também trilha sonora; Tirotti, no making-off e na fotografia; Fabrício Porto nas fotos, fotografia, luz e divulgação bloguística; Robson Conceição na produção, Luciano Fusinato na confecção do boneco e outras confecções; Borges de Garuva e Clarice Siewert em cena.
Depois da participação junto com o Fabio (onde orbitaram também Tirotti, Robson e Fabrício) desde ‘Sonhos de um poeta morto’, onde fiz direção de atores – aspecto do qual me ressinto quando na condição de ator –, passando por ‘Cena 3’, como entrevistado; pelo ótimo processo de ‘Educação (proposta independente, o que muito me atrai)’; e além da satisfação de contracenar novamente com o Borges e a Clarice, andei então às voltas com a busca de ‘presença cênica’ para meu personagem, neste caso, o Elói.
Ao olhar para uma cidade como Joinville, com sua violenta sistemática de produção industrial, comercial e ‘educacional’, a escravidão imposta por horários, ritmos, consciência coletiva (ou falta dela) provinciana, o descaso gritante com a arte e a cultura, ‘agentes de transformação’ inconseqüentes e inoperantes, com uma elite pensante comprometida com o status quo e alheia ao seu papel de observadora crítica da sociedade em que vive, vejo como é maravilhoso esse estado de coisas para o ofício das artes.
Não que a cidade também não contemple uma arte à mercê dessa estrutura imbecilizante, mas nisso não se diferencia de outros centros urbanos de porte semelhante, embora, segundo alguns muitos, aqui seja claramente mais escancarado esse atrelamento da arte aos ‘podres poderes’.
O personagem Elói é fã incondicional do Raul Seixas, e é um tipo meio ‘porralouca’, toca violão, faz artesanato, tem vontade de montar um grande musical… Advém daí a referência de um meu conhecido: ‘Ah, então, já que o personagem é um ‘porralouca’, vai ser fácil pra você interpretá-lo!’
Nos dias atuais, onde o chamado ‘porralouca’ já é quase cult, não pude deixar de dar uma escorregadela na vaidade. Haja meditação!
Mas isso passou rapidamente, pois o trabalho exigia outras condições de percepção, tanto na disposição física, em trejeitos sutis, na diferença entre o personagem do filme e o personagem do ator de teatro dentro do filme, e essas coisas que o ‘terrível e temível exagero do teatro’ vem para exercer desafio diante de uma câmera.
Nos matizes da crescente ligação entre o personagem e a vida ‘real’, no laboratório diário de contato fora da aparente formalidade dos ensaios e filmagens e da aparente informalidade do cotidiano, misturam-se neste gradiente relações, interpretações e visões as mais interessantes, desde um corte ou não de cabelo, um aparo ou não de barba, uma performance sem roupas em coletiva de artes plásticas ou o singelo pedalar pelas ruas da cidade.
E tudo compõe.
A este laboratório de experimentações, ator/personagem/pessoa/artista/criador, junta-se o quase onipresente inusitado. Aquela vivência que, num átimo, transforma a pesquisa e abre uma extraordinária possibilidade de redenção.
Para mim e para o Elói veio através do início da leitura da obra ‘A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso’, do filósofo Konrad Lorenz, prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1973 (em conjunto com Nikolaas Tinbergen e Karl Von Frisch). Na minha experiência, cada pesquisa de um personagem trás embutido um ganho humano, algo que descubro em mim, nos outros, na humanidade. Algo que não enxergava, às vezes algo que até já antevia, mas ainda não estava totalmente consolidado ou mesmo algo insólito, que nunca pensara sobre.
Ao me deparar com a obra de Lorenz, aconteceu a confirmação de algo que sinto há um tempo e que tenho visto ser relativamente difícil de compartilhar. São raras as pessoas que tenho conseguido estabelecer um diálogo sem que não se argumente um número excessivo de fugas mentais e emocionais sobre o assunto. O assunto é o tamanho da responsabilidade pessoal, individual que chegamos a identificar neste período que vivemos, com relação às coisas do mundo como um todo. Ou seja, cada ato, cada ação minha têm uma conseqüência. Isso implica que, quanto mais consciente das conseqüências de cada ato, mais atento devo ficar a cada momento. Via de regra, boa parte dos interlocutores estabelecem uma lógica transversa difícil de desembaraçar na fluência de um bate-papo, porquanto o surgimento dessa dificuldade aparentemente insuperável. Ora, a interconectividade não está apenas no aparato eletrônico que utilizamos. Isso é apenas a forma, a aparência, aquilo que é identificável grosseiramente. A interconectividade é mais profunda!
Muito embora não seja difícil de identificar uma boa parte, senão a maioria das pessoas em completa alienação, como crianças com brinquedo novo, absortas num mundo cada vez mais esquizóide.
De há um bom tempo não me vejo afeito a sustos, mas confesso que essa situação tem me deixado em caso de espanto. Algumas dúvidas se submetem constantes: Estará Saramago correto ao falar que vivemos uma ‘cegueira branca’? Será que, como grupo humano, nos tornamos tão obtusos, insensíveis e fracos que não reagimos mais à profunda ignorância e violência do meio?
Cito uma passagem do livro de Lorenz:
“O pensamento ‘tecnomorfo’ deixa as pessoas convictas de que qualquer desenvolvimento traz consigo, necessariamente, novos valores. Mesmo que se adote a concepção goethiana do desenvolvimento como uma diferenciação e subordinação das partes, tal concepção é errada não somente no sentido filogenético como ainda mais em relação aos possíveis desdobramentos culturais (…). Uma ilustração particularmente atraente nos é fornecida pelo que se compreende por ‘desenvolvimento regional’ (…) que, na gleba em questão, toda e qualquer vegetação natural será sumariamente exterminada, o solo assim exposto será recoberto por concreto (ou, na melhor das hipóteses, por um gramado ‘paisagístico’), um pedacinho de praia marítima porventura existente será reforçado por muros de arrimo em cimento armado, córregos serão retificados (quando não canalizados através de grossas manilhas), e tudo isto será então rigorosamente envenenado por meio de pesticidas para depois ser vendido, pelos mais altos preços possíveis, a um consumidor devidamente urbanizado e imbecilizado. E, por sobre isso, o pensamento tecnomorfo nos impõe, de maneira quase taxativamente neurotizante, a idéia de que se confundem a mera possibilidade técnica de se realizar determinado processo e o compromisso obrigatório de efetivamente levá-lo a cabo. Esta imposição já se tornou um verdadeiro mandamento da religião tecnocrática: – Tudo o que de qualquer modo puderes fazer, farás.”
Estava aí o argumento que faltava para ligar com o diálogo interno sobre a psicologia do personagem Elói, uma experimentação que ele julga importante e que não deve abrir mão. Parte de sua ‘visão de mundo’.
Partilho dessa visão!
A vivência do teatro nos cativa a buscar, até intuitivamente, uma certa visceralidade, uma empatia entre os agentes do processo criativo em que a participação é ativa, no sentido inclusive do tempo em que compartilham esse mesmo processo juntos.
No vídeo, isso muitas vezes é posto em xeque pela velocidade e ‘sofisticação’ das mídias e dos instrumentos.
Claro que, produções de vídeo e cinema em que se consiga resgatar, manter e estimular esse profundo contato humano, terão como resultado não só a excelência da obra em si, mas também o engrandecimento do espírito humano, já tão abalado pelo contágio da autodestruição que nos cerca em todos os níveis.
De uma maneira geral, chego até a gostar um pouco da surpresa do vídeo. Como ficarão as cenas, as cores, o ritmo, a música, enfim, o resultado da performance dos titeriteiros da eletrônica.
Na atual situação em que vivemos, onde artistas burocratas se colocam como escravos do meio circundante, onde as iniciativas de pesquisa desvinculadas do modismo são vistas com olhares, ora de desdém, ora de espanto, ora de medo, mas sempre através de um olhar ‘embranquecido’, sinto a confirmação da violentíssima repressão que vivemos atualmente: a auto-repressão, o autoaniquilamento. O inimigo já está dentro de nós mesmos, dentro de nossas mentes. Já fincou bandeira e está totalmente à vontade nesse território, ‘sugando’ nossa energia bem à moda do que aparece no filme ‘Matrix’, somos ‘obrigados’ a produzir, num ritmo insano e devastador.
Assim sendo, alinho minha visão com a visão do personagem Elói e por mais que os amigos da cegueira branca alardeiem nossa pretensa loucura ou porralouquice, seguimos nós, gritando nus no meio da praça: ‘O rei está vestido! O rei está vestido!’
E encerro com o finalzinho do citado texto de Plínio Marcos: ‘Amo o ator e por ele amo o teatro. Sei que é por ele que o teatro é eterno e jamais será superado por qualquer arte que se valha da técnica mecânica.’
As vovós diriam que quem viver, verá!

Laércio Amaral


mai 25 2009

o TAo

O Arqueiro, o Arco, a Flecha e o Alvo são um só.